É provável que você já tenha ouvido essa afirmação em alguma conversa sobre saúde intestinal: “70% da sua imunidade está no intestino”. A frase circula amplamente em conteúdos de bem-estar e, embora pareça um exagero de marketing à primeira vista, ela tem, na verdade, respaldo na fisiologia humana. O intestino não é apenas o órgão responsável por digerir alimentos e absorver nutrientes, ele abriga a maior concentração de células de defesa do corpo humano.
A Tecno Vida entende que compreender o porquê por trás dessa afirmação é mais valioso do que simplesmente repeti-la. Por isso, este artigo explica, com base em literatura científica nacional e internacional, o que é essa estrutura imunológica intestinal, como a microbiota participa desse processo, e o que a ciência brasileira tem mostrado sobre o impacto do padrão alimentar do país cada vez mais dominado por alimentos ultraprocessados sobre esse sistema de defesa.
Vale adiantar o principal fundamento por trás da frase: estudos em imunologia estimam que entre 60% e 80% dos linfócitos do corpo humano as células responsáveis por boa parte da resposta imune adaptativa estão concentrados no tecido linfoide associado ao intestino, conhecido pela sigla GALT (do inglês gut-associated lymphoid tissue). Entender essa estrutura é o primeiro passo para compreender por que cuidar do intestino é, também, cuidar da imunidade.
Formada em nutrição pela UFMT. Especialista em: Nutrição clinica (UFMT), Nutrição clínica funcional (VP), Nutrição parenteral e enteral (GANEP)
O GALT (tecido linfoide associado ao intestino) é considerado, depois do timo, o local do corpo com a maior concentração de células do sistema imunológico. Trata-se de uma rede complexa de estruturas linfoides distribuídas ao longo de toda a mucosa intestinal, que inclui:
Essas estruturas fazem parte de um sistema mais amplo o tecido linfoide associado às mucosas (MALT), mas o componente intestinal (GALT) é, disparado, o maior representante desse sistema, o que explica a estimativa de que a maior parte dos linfócitos do organismo esteja concentrada nessa região.
Do ponto de vista funcional, essa concentração de células de defesa no intestino não é acidental: é justamente ali que o corpo humano tem o maior contato direto e constante com substâncias externas tudo o que ingerimos, incluindo alimentos, água e os microrganismos que compõem a microbiota intestinal. O GALT atua, portanto, como um verdadeiro centro de vigilância, decidindo continuamente o que deve ser tolerado (como nutrientes e bactérias benéficas) e o que deve ser combatido (como patógenos).
Não é possível falar da imunidade intestinal sem falar da microbiota o conjunto de trilhões de microrganismos, majoritariamente bactérias, que habitam o trato gastrointestinal humano. A relação entre microbiota e GALT é bidirecional: o tecido linfoide monitora e regula a composição da microbiota, e a própria microbiota é essencial para o desenvolvimento e o amadurecimento adequado do sistema imunológico.
Estudos de revisão publicados em periódicos científicos brasileiros descrevem esse processo da seguinte forma: antígenos de microrganismos presentes na microbiota intestinal são capturados por células especializadas (como as células M) e apresentados a células dendríticas e macrófagos nas Placas de Peyer, resultando na ativação de mecanismos de defesa inatos e adaptativos. Esse processo contínuo de “diálogo” entre bactérias intestinais e sistema imune é o que permite ao corpo desenvolver tolerância a substâncias inofensivas como componentes de alimentos e, ao mesmo tempo, manter capacidade de resposta rápida contra agentes realmente nocivos.
Alguns conceitos-chave para entender essa relação:
Quando esse equilíbrio é rompido, a literatura científica associa a disbiose a uma hiperestimulação do GALT, o que pode contribuir para processos inflamatórios e para o surgimento ou agravamento de determinadas condições, incluindo doenças inflamatórias intestinais.
Se a microbiota é peça-chave para a educação do sistema imune, o padrão alimentar de uma população se torna uma variável direta de saúde pública e os dados brasileiros acendem um sinal de alerta importante.
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, os alimentos ultraprocessados já representavam cerca de 20% do total de calorias consumidas pela população brasileira com mais de 10 anos na edição de 2017-2018 um aumento em relação à pesquisa anterior, de 2008-2009. Pesquisadores da Universidade de São Paulo, que desenvolveram a classificação NOVA (referência internacional para categorizar o grau de processamento dos alimentos), apontam que esse consumo mais que dobrou no Brasil desde a década de 1980, e projeções recentes indicam que os ultraprocessados já se aproximam de um quarto do total calórico da dieta do brasileiro.
Por que isso importa para a imunidade intestinal? Revisões científicas nacionais sobre modulação da microbiota pela alimentação apontam que:
Esse cenário reforça um ponto central: falar em “fortalecer a imunidade pelo intestino” não é uma tendência abstrata de bem-estar, mas uma questão diretamente relacionada ao padrão alimentar real do brasileiro, que caminha, segundo os próprios dados oficiais, na direção contrária à recomendada pelo Ministério da Saúde.
Diante dessa relação entre alimentação, microbiota e imunidade, é natural que cresça o interesse por probióticos (microrganismos vivos benéficos), prebióticos (substâncias, como certas fibras, que servem de alimento para essas bactérias) e simbióticos (a combinação dos dois). Revisões brasileiras recentes indicam que a modulação da microbiota por meio de simbióticos pode representar uma estratégia relevante para reduzir processos pró-inflamatórios no intestino.
No entanto, como já discutido em outros conteúdos da Tecno Vida sobre suplementação, é importante manter a cautela científica nesse tema:
Antes de recorrer à suplementação, vale lembrar que a própria alimentação cotidiana priorizando fibras, alimentos in natura e minimamente processados, como preconiza o Guia Alimentar para a População Brasileira já representa uma das formas mais bem fundamentadas de apoiar a saúde da microbiota e, por consequência, do GALT.
Embora a alimentação seja a variável mais discutida quando se fala em imunidade intestinal, ela não atua isoladamente. A literatura científica também associa outros fatores à composição e ao funcionamento saudável da microbiota e do GALT:
Isso reforça que cuidar da “imunidade intestinal” não se resume a um único suplemento ou alimento específico, mas a um conjunto de hábitos sustentados ao longo do tempo sendo a alimentação, dado o volume de evidências e a realidade nutricional brasileira discutida anteriormente, provavelmente o fator mais impactante e mais acessível de ser ajustado no dia a dia.
A afirmação de que “70% da imunidade está no intestino” não é apenas uma frase de efeito: ela resume, de forma simplificada, um achado consistente da imunologia a de que o GALT concentra a maior parte dos linfócitos do corpo humano, e que esse tecido está em constante diálogo com a microbiota intestinal para regular a resposta imune do organismo.
No contexto brasileiro, esse conhecimento ganha um significado prático especial: dados do IBGE mostram que o consumo de alimentos ultraprocessados historicamente associado a uma microbiota menos diversa e a um ambiente intestinal mais propenso à inflamação vem crescendo continuamente no país, e já responde por cerca de um quinto a um quarto das calorias consumidas pela população. Ajustar o padrão alimentar na direção do que recomenda o Guia Alimentar para a População Brasileira, priorizando fibras e alimentos in natura, é, portanto, uma das formas mais bem fundamentadas cientificamente de apoiar essa relação entre intestino e imunidade.
Probióticos e prebióticos podem ter papel complementar nesse processo, mas como em qualquer estratégia de suplementação sua indicação, forma e dose devem ser avaliadas individualmente por um profissional de saúde, e não escolhidas por conta própria com base apenas em modismos.
A Tecno Vida reforça seu compromisso em oferecer conteúdo educativo baseado em ciência e na realidade brasileira, ajudando você a entender melhor o funcionamento do seu corpo e a tomar decisões mais conscientes sobre sua saúde.
Essa cifra é uma forma popular de resumir um achado da imunologia: estudos científicos estimam que entre 60% e 80% dos linfócitos do corpo humano estão concentrados no tecido linfoide associado ao intestino (GALT), a maior estrutura do sistema imunológico associado às mucosas. O número exato varia conforme a metodologia de cada estudo, mas o princípio de que o intestino concentra a maior parte das células de defesa do organismo é bem estabelecido na literatura científica.
Não. Uma microbiota equilibrada (eubiose) contribui para a educação e a regulação adequada do sistema imunológico, mas não é sinônimo de imunidade absoluta contra infecções ou doenças. Diversos outros fatores como genética, vacinação, estado nutricional geral, sono, estresse e exposição a patógenos também influenciam a resposta imune do corpo como um todo.
Não isoladamente. A eficácia de um probiótico depende da cepa específica e da indicação para a qual foi estudada não existe um probiótico "genérico" com efeito comprovado sobre toda a imunidade. Alimentos fermentados podem ser incorporados como parte de uma alimentação equilibrada, mas o maior impacto sobre a microbiota, segundo a ciência, vem do padrão alimentar como um todo, especialmente da ingestão adequada de fibras e não de um único alimento ou suplemento isolado.
Os alimentos ultraprocessados costumam ser pobres em fibras nutriente essencial para alimentar as bactérias benéficas do intestino e ricos em açúcares, gorduras de baixa qualidade e aditivos químicos. Estudos científicos associam esse padrão alimentar a alterações na diversidade da microbiota intestinal e a um ambiente mais propenso a processos inflamatórios, o que pode impactar negativamente a regulação do GALT ao longo do tempo.
Não é recomendado. Assim como qualquer suplemento, os probióticos devem ser escolhidos com base em evidência específica para a cepa e para o objetivo desejado, e sua indicação, no Brasil, é uma atribuição regulamentada de nutricionistas e médicos. Antes de recorrer à suplementação, priorizar uma alimentação rica em fibras e alimentos in natura como recomenda o Guia Alimentar para a População Brasileira costuma trazer o maior impacto positivo sobre a saúde da microbiota e, por consequência, sobre a imunidade intestinal.
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