O Brasil, historicamente associado à churrascaria e ao consumo elevado de carne vermelha, vem passando por uma transformação silenciosa em seus hábitos alimentares. Segundo pesquisa do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), 46% dos brasileiros já deixam de comer carne pelo menos uma vez por semana, por vontade própria, independentemente da região do país ou da faixa etária. Já uma pesquisa do Ibope, encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), identificou que 14% da população brasileira se considera vegetariana um número expressivo para um país de forte tradição carnívora.
A Tecno Vida entende que essa mudança de hábito merece ser acompanhada de informação de qualidade. Reduzir ou eliminar alimentos de origem animal da dieta pode trazer benefícios reconhecidos à saúde, mas também exige atenção redobrada a nutrientes que, na alimentação onívora, viriam naturalmente dessas fontes. Por isso, este artigo reúne o posicionamento de entidades técnicas brasileiras como a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e o Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para explicar, com base científica, como planejar uma dieta vegetariana ou vegana segura, evitando as principais deficiências nutricionais associadas a esse padrão alimentar.
Um princípio orienta este conteúdo do início ao fim, reforçado por especialistas brasileiros da área: tanto o vegetarianismo quanto o veganismo podem ser práticas alimentares seguras e saudáveis em qualquer fase da vida mas, assim como qualquer outro padrão alimentar, exigem planejamento e, idealmente, acompanhamento nutricional, especialmente diante de determinados nutrientes considerados críticos.
Formada em nutrição pela UFMT. Especialista em: Nutrição clinica (UFMT), Nutrição clínica funcional (VP), Nutrição parenteral e enteral (GANEP)
Antes de falar sobre nutrientes, é importante esclarecer um ponto de confusão comum. Segundo a nutricionista Lara Natacci, da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), a dieta vegetariana é aquela que exclui carne, frango e peixe, mas costuma incluir laticínios e ovos enquanto o vegetarianismo estrito (também chamado de veganismo na alimentação) exclui absolutamente todos os alimentos de origem animal, incluindo ovos, leite e derivados.
De forma mais detalhada, a Sociedade Vegetariana Brasileira classifica os principais subtipos da seguinte forma:
Essa distinção importa porque o risco nutricional varia proporcionalmente ao grau de restrição: um ovolactovegetariano, que ainda consome ovos e laticínios, tem acesso natural a nutrientes como vitamina B12 e cálcio, enquanto o vegano precisa planejar cuidadosamente essas fontes por meio de alimentos fortificados ou suplementação. Entender em qual categoria a própria alimentação se encaixa é o primeiro passo para saber quais nutrientes exigem atenção prioritária.
Se há um consenso absoluto entre as entidades brasileiras que estudam o tema, ele diz respeito à vitamina B12. O Departamento Científico de Nutrologia da SBP é direto ao afirmar que a carência no consumo de alimentos de origem animal pode contribuir para menor ingestão de ferro, cálcio, zinco e, especialmente, vitamina B12 um nutriente originário exclusivamente de fontes animais, presente em fontes vegetais apenas quando estas são fortificadas artificialmente.
Pontos essenciais sobre esse nutriente:
Diferentemente da vitamina B12, ferro e zinco estão presentes em boa quantidade em diversos alimentos vegetais leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico), grãos integrais e sementes, todos amplamente disponíveis na culinária brasileira. O desafio, porém, não é a quantidade, mas a forma como o corpo absorve esses minerais.
Segundo material técnico da SVB, o ferro presente em alimentos vegetais está na forma não heme, que tem absorção naturalmente menor pelo organismo do que o ferro heme, encontrado em carnes. Isso não significa que vegetarianos estejam automaticamente deficientes estudos citados pela própria entidade mostram que crianças vegetarianas costumam ingerir quantidade até maior de ferro do que crianças onívoras, mas que a atenção deve estar voltada à absorção, e não apenas à quantidade consumida.
Estratégias práticas recomendadas por especialistas brasileiros para melhorar a absorção desses minerais:
Em casos de deficiência já identificada por exame de sangue, a suplementação de ferro e zinco pode ser indicada por um profissional de saúde mas, diferente da vitamina B12, não é considerada obrigatória para todo vegetariano, e sim uma decisão baseada em avaliação individual.
Além da vitamina B12, ferro e zinco, outros três nutrientes aparecem com destaque nas orientações técnicas brasileiras sobre vegetarianismo e veganismo:
Ômega-3 (EPA e DHA)
Cálcio
Vitamina D
O fio condutor de todas as orientações técnicas brasileiras sobre vegetarianismo e veganismo é consistente: o problema nunca é a exclusão de alimentos de origem animal em si, mas a ausência de planejamento alimentar adequado. Um posicionamento da SVB é enfático nesse ponto: estudos com crianças vegetarianas e veganas que tiveram alimentação devidamente planejada, incluindo a suplementação necessária de B12 mostraram crescimento e desenvolvimento adequados, sem diferenças relevantes em relação a crianças onívoras.
Alguns cuidados práticos reforçados pelas entidades brasileiras consultadas neste artigo:
Esse conjunto de cuidados demonstra que a segurança nutricional do vegetarianismo e do veganismo não depende de sorte ou de uma dieta “naturalmente equilibrada” por si só, mas de escolhas alimentares informadas, sustentadas ao longo do tempo o mesmo princípio, aliás, válido para qualquer padrão alimentar, incluindo o onívoro.
A alimentação vegetariana e vegana vem ganhando espaço real na rotina dos brasileiros com quase metade da população já reduzindo o consumo de carne ao menos uma vez por semana, segundo o Ipec, e 14% se identificando como vegetariana, conforme dados do Ibope para a Sociedade Vegetariana Brasileira. Entidades técnicas nacionais, como a SVB e o Departamento de Nutrologia da SBP, reconhecem esse padrão alimentar como seguro e saudável em qualquer fase da vida, desde que devidamente planejado.
Vitamina B12 é o nutriente que exige atenção mais consistente e, na prática, suplementação praticamente obrigatória para vegetarianos estritos e veganos. Ferro, zinco, ômega-3, cálcio e vitamina D também merecem monitoramento, embora com estratégias diferentes, muitas delas resolvidas por meio de combinações alimentares inteligentes, como associar fontes de ferro vegetal à vitamina C, uma prática simples e plenamente compatível com a culinária brasileira.
Mais do que uma lista de restrições, à alimentação vegetariana e vegana bem-sucedida é fruto de planejamento consciente e, sempre que possível, acompanhamento de um nutricionista profissional habilitado a individualizar essas orientações conforme idade, fase da vida e necessidades específicas de cada pessoa.
A Tecno Vida reforça seu compromisso em oferecer conteúdo educativo baseado em ciência e na realidade brasileira, apoiando quem já optou ou está considerando optar por uma alimentação com menos ou nenhum produto de origem animal.
Sim, segundo entidades técnicas brasileiras como a Sociedade Vegetariana Brasileira e o Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, desde que a dieta seja bem planejada e acompanhada por um profissional de saúde. Estudos citados por essas entidades mostram crescimento e desenvolvimento adequados em crianças vegetarianas e veganas quando há planejamento alimentar e suplementação de B12 conforme necessário, assim como qualquer outra prática nutricional exige cuidados específicos.
Depende do tipo de vegetarianismo. Ovolactovegetarianos, que consomem ovos e laticínios, ainda têm acesso natural a fontes desse nutriente, embora a avaliação individual seja sempre recomendada. Já vegetarianos estritos e veganos, que eliminam todo alimento de origem animal, não têm fonte vegetal natural confiável de vitamina B12, e a suplementação é considerada praticamente indispensável por entidades técnicas brasileiras.
Não necessariamente em quantidade, estudos citados pela SVB mostram que crianças vegetarianas costumam ingerir até mais ferro do que crianças onívoras. A diferença está na forma do ferro: o ferro vegetal (não heme) tem absorção naturalmente menor do que o ferro de origem animal (heme). Por isso, a estratégia mais eficaz não é apenas aumentar a quantidade consumida, mas combinar alimentos ricos em ferro vegetal com fontes de vitamina C na mesma refeição, o que melhora significativamente sua absorção.
Segundo orientações de entidades brasileiras, gestantes vegetarianas e veganas devem monitorar com atenção especial a ingestão de ferro, vitamina B12, vitamina D, cálcio, iodo e ácidos graxos essenciais (ômega-3), já que a demanda por esses nutrientes aumenta durante a gestação. O acompanhamento com um obstetra e um nutricionista é recomendado para ajustar a suplementação conforme a necessidade individual.
Não, segundo orientação da Sociedade Vegetariana Brasileira. Bebidas vegetais ultraprocessadas não devem substituir o leite materno nos primeiros anos de vida, sendo mais adequadas a partir de idades posteriores, e sempre conforme orientação pediátrica individual. O aleitamento materno exclusivo até os seis meses, e complementado até os dois anos ou mais, é recomendado inclusive para mães vegetarianas e veganas.
Gostou? Que tal navegar pelo nosso blog e aumentar ainda mais o seu conhecimento em nutrição? Clique abaixo e veja outro artigo preparado com muito carinho para você!