A relação entre cafeína e níveis hormonais femininos é um tema frequentemente comentado, mas raramente explicado com o rigor que a evidência científica exige. Circulam informações contraditórias: para algumas pessoas, a cafeína “reduz o estrogênio”; para outras, “aumenta” este hormônio. A realidade científica é mais complexa e mais interessante do que qualquer uma destas afirmações isoladas.
A investigação científica mostra que o efeito da cafeína sobre o estrogênio não é uniforme: depende da quantidade consumida, do tipo de bebida cafeinada, de fatores genéticos individuais (como variações no gene CYP1A2) e até da etnia da pessoa. Neste artigo, a equipe tecnica da TECNOVIDA reúne evidências científicas para esclarecer, com rigor técnico, o que se sabe atualmente sobre esta relação.
Formada em nutrição pela UFMT. Especialista em: Nutrição clinica (UFMT), Nutrição clínica funcional (VP), Nutrição parenteral e enteral (GANEP)
Para compreender esta relação, é essencial conhecer o papel da enzima CYP1A2, presente no fígado. Segundo um estudo publicado na revista científica Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, da American Association for Cancer Research, esta isoforma enzimática catalisa a hidroxilação dos estrogênios parentais e também participa na desmetilação inicial da cafeína no organismo humano. Ou seja, cafeína e estrogênio partilham a mesma via metabólica hepática, o que explica por que uma pode influenciar a outra.
Este mesmo estudo destaca que a metabolização da cafeína é catalisada principalmente pela CYP1A2, e evidências laboratoriais e em humanos sugerem que a cafeína atua como indutora da atividade desta enzima. Como a CYP1A2 também processa os estrogênios, variações na sua atividade induzidas pela cafeína ou determinadas geneticamente podem, de fato, alterar a forma como o organismo metaboliza essas hormonas.
O estudo mais robusto e citado sobre este tema é o BioCycle Study, conduzido nos Estados Unidos e publicado no American Journal of Clinical Nutrition, que acompanhou 259 mulheres saudáveis ao longo de dois ciclos menstruais completos, com múltiplas colheitas de sangue por ciclo. Os resultados são reveladores: a ingestão de cafeína acima de 200 mg por dia esteve inversamente associada às concentrações de estradiol livre entre mulheres brancas, mas positivamente associada entre mulheres asiáticas.
Este mesmo estudo verificou ainda que a ingestão de refrigerantes cafeinados e de chá verde acima de uma xicara por dia esteve positivamente associada às concentrações de estradiol livre em mulheres de todas as etnias. Uma publicação especializada em obstetrícia e ginecologia resume bem esta complexidade: apenas duas xícaras de café cafeinado por dia já são suficientes para reduzir as concentrações de estradiol livre em mulheres brancas e para as aumentar em mulheres asiáticas, enquanto uma única xicara de refrigerante cafeinado ou chá verde já é suficiente para aumentar o estradiol livre em mulheres de todas as etnias.
Conclusão prática deste ponto: não existe uma resposta única de “sim” ou “não” o efeito da cafeína sobre o estrogênio depende significativamente da fonte de cafeína consumida (café puro versus chá ou refrigerante) e de fatores genéticos e étnicos individuais.
Um estudo publicado na revista British Journal of Cancer aprofunda esta questão ao investigar variações no gene CYP1A2. Segundo os autores, o café é metabolizado pela enzima CYP1A2, que também desempenha um papel fundamental no metabolismo do estrogênio, e mulheres com o genótipo CYP1A21F* A/A associado a maior capacidade de indução enzimática apresentam um padrão de metabolização do estrogênio distinto daquelas com outras variantes genéticas.
Esta variabilidade genética explica, em grande parte, por que estudos populacionais encontram resultados diferentes consoante a composição étnica e genética das participantes. Adicionalmente, a mesma investigação nota que o café contém não apenas cafeína, mas também fitoestrógenos que podem interagir com o receptor de estrogênio e até bloqueá-lo o que acrescenta outra camada de complexidade a esta relação, já que o efeito observado não depende apenas da cafeína isoladamente, mas de outros compostos bioativos presentes na bebida.
Um aspecto pouco divulgado, mas cientificamente relevante, é que esta relação funciona nos dois sentidos. Um estudo publicado no Journal of Clinical Pharmacology investigou o efeito da terapia de reposição estrogênica sobre a metabolização da cafeína em mulheres pós-menopáusicas, verificando que o uso de estrogênio exógeno nesta população pode inibir a metabolização da cafeína mediada pela enzima CYP1A2, resultando numa redução média de 29% na taxa metabólica da cafeína após oito semanas de tratamento hormonal.
Esta descoberta é clinicamente relevante: significa que mulheres em terapia de reposição hormonal ou mesmo em fases do ciclo menstrual com níveis mais elevados de estrogênio tendem a metabolizar a cafeína mais lentamente, permanecendo com níveis mais elevados desta substância no organismo por mais tempo. Um estudo relacionado confirma este padrão, indicando que mulheres com níveis mais elevados de estrogênio, como utilizadoras de contraceptivos hormonais orais, mulheres na fase lútea do ciclo ou grávidas, apresentam menor atividade da CYP1A2 e menor depuração da cafeína.
Durante a menopausa, o cenário hormonal é diferente, já que os níveis de estrogênio se encontram naturalmente reduzidos. Segundo o Manual de Orientação em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), os fogachos são precipitados por fatores como estresse, calor, bebidas alcoólicas, cafeína e comidas apimentadas, sendo o segundo sintoma mais frequente do climatério, ocorrendo em aproximadamente 75% das mulheres, e resultam essencialmente do declínio dos níveis de estrogênio, e não da cafeína em si.
A própria FEBRASGO, ao abordar o estilo de vida como base do cuidado na menopausa, recomenda que as mulheres considerem reduzir o consumo de cafeína como parte de pequenos hábitos diários que podem melhorar significativamente a qualidade do sono nesta fase não porque a cafeína seja a causa direta da redução do estrogênio, mas porque pode agravar sintomas já existentes, como distúrbios do sono e ondas de calor, num período em que o corpo já está fisiologicamente mais sensível.
A resposta à pergunta “a cafeína diminui o estrogênio?” Não é um simples sim ou não é “depende”. A evidência científica mostra que a cafeína e o estrogênio partilham a mesma via de metabolização hepática, através da enzima CYP1A2, o que cria uma relação bidirecional e influenciada por múltiplos fatores: a quantidade de cafeína consumida, a fonte específica (café, chá verde ou refrigerante cafeinado), variações genéticas individuais e até a etnia da pessoa. Estudos robustos, como o BioCycle Study, demonstram que o café pode reduzir o estradiol livre em mulheres brancas mas aumentá-lo em mulheres asiáticas, enquanto o chá verde e os refrigerantes cafeinados tendem a aumentar o estradiol em mulheres de todas as etnias.
Na menopausa, o consumo de cafeína não é a causa da redução do estrogênio que é um processo fisiológico natural desta fase, mas pode agravar sintomas associados, como ondas de calor e distúrbios do sono, razão pela qual entidades como a FEBRASGO recomendam moderação nesta fase da vida.
A equipe tecnica da TECNOVIDA reforça que, dada a complexidade e a individualidade desta relação, qualquer preocupação específica sobre níveis hormonais e consumo de cafeína deve ser discutida com um médico ginecologista, endocrinologista ou nutricionista, capaz de avaliar o contexto clínico, genético e de estilo de vida de cada pessoa.
Não. A evidência científica mostra que o efeito da cafeína sobre o estrogênio varia conforme a etnia, a genética individual (relacionada com a enzima CYP1A2) e a fonte de cafeína consumida. Estudos como o BioCycle Study encontraram redução do estradiol livre em mulheres brancas com consumo elevado de café, mas aumento em mulheres asiáticas.
Não. A evidência científica indica que o café pode reduzir o estradiol livre em algumas populações, enquanto o chá verde e os refrigerantes cafeinados foram associados a um aumento do estradiol livre em mulheres de todas as etnias, provavelmente devido a outros compostos bioativos presentes nestas bebidas, além da cafeína.
A cafeína não é a causa da redução do estrogênio na menopausa, que é um processo fisiológico natural desta fase. No entanto, pode agravar sintomas associados, como ondas de calor e distúrbios do sono, motivo pelo qual entidades como a FEBRASGO recomendam moderação no seu consumo durante o climatério.
Sim. A evidência científica mostra que mulheres com níveis mais elevados de estrogênio como utilizadoras de contraceptivos hormonais orais, mulheres na fase lútea do ciclo menstrual ou grávidas apresentam menor atividade da enzima CYP1A2 e, consequentemente, metabolizam a cafeína mais lentamente.
Não há evidência que sustente a eliminação total da cafeína apenas por este motivo, na maioria das mulheres saudáveis. A relação entre cafeína e estrogênio é individual e depende de múltiplos fatores. Recomenda-se moderação no consumo e, em caso de dúvidas específicas relacionadas com saúde hormonal, reprodutiva ou menopausa, procurar orientação médica ou nutricional individualizada.
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