As oleaginosas como: amêndoas, nozes, castanha-do-pará, castanha-de-caju, avelãs, pistácios e amendoim são reconhecidos pela comunidade científica como alimentos de elevado valor nutricional, ricos em gorduras insaturadas, proteína vegetal, fibra, vitamina E, magnésio e zinco. É frequente, porém, que pais, mães e cuidadores questionem os profissionais de saúde sobre a segurança da sua introdução na alimentação infantil, sobretudo devido a dois receios legítimos: o risco de engasgamento e o risco de alergia alimentar.
A resposta científica atual é, na verdade, mais tranquilizadora e também mais precisa do que a ideia popular de “evitar até crescer”. A questão não é apenas se a criança pode consumir oleaginosos, mas sobretudo em que forma e a partir de que idade, distinção fundamental que este artigo, elaborado pela equipe tecnica da TECNOVIDA com base em diretrizes nacionais e internacionais, procura esclarecer.
Formada em nutrição pela UFMT. Especialista em: Nutrição clinica (UFMT), Nutrição clínica funcional (VP), Nutrição parenteral e enteral (GANEP)
O primeiro conceito a compreender é que “oleaginosos” não corresponde a uma única forma de apresentação. Do ponto de vista da segurança alimentar pediátrica, existe uma diferença crucial entre:
O guia sobre diversificação alimentar infantil, referência amplamente utilizada por profissionais de saúde, inclui explicitamente as gorduras saudáveis como azeite, abacate e oleaginosas trituradas entre os alimentos recomendados na fase de introdução alimentar. Esta distinção é a base de toda a orientação clínica sobre o tema.
Segundo o Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a introdução de novos alimentos deve ser feita aos seis meses de idade, mesmo para crianças que consomem fórmula infantil, momento em que o desenvolvimento neuropsicomotor e os sistemas digestivo e renal estão plenamente prontos para receber outros alimentos além do leite. Esta recomendação está alinhada com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
É a partir deste marco dos seis meses e não antes que oleaginosos em forma seguramente triturada, moída ou em pasta fina podem começar a ser considerados, sempre integrados de forma gradual e conforme a tolerância individual da criança, tal como acontece com qualquer outro grupo alimentar novo.
O principal motivo de cautela em relação aos oleaginosos não é metabólico, mas sim relacionado à segurança das vias aéreas. A American Academy of Pediatrics (AAP) é clara quanto a este ponto: recomenda-se que os pais evitem dar frutos secos inteiros às crianças até aos 4 anos de idade, uma vez que os bebés e crianças pequenas ainda não possuem os dentes molares necessários para triturar o alimento a um tamanho seguro para engolir.
Um estudo publicado e indexado na base PubMed Central, dedicado especificamente à avaliação do risco de aspiração de oleaginosos por faixa etária, reforça esta preocupação: 90% dos episódios de aspiração pediátrica de oleaginosos ocorrem em crianças com menos de 36 meses, pelo que se sugere a introdução supervisionada de frutos secos inteiros apenas entre os 3 e os 4 anos de idade.
Outras entidades de referência em pediatria adotam uma postura ainda mais conservadora, recomendando que crianças com menos de 7 anos não devem receber oleaginosos inteiros, por continuarem a representar um risco de engasgamento nessa faixa etária. Esta variação entre os 4 e os 7 anos reflete diferenças de critério entre sociedades científicas, mas o consenso é unânime num ponto: oleaginosos inteiros não são seguros para bebés e crianças pequenas, independentemente da idade exata escolhida como referência.
Os oleaginosos, incluindo o amendoim, estão entre os alimentos com maior potencial alergênico, a par do leite de vaca, ovo, soja, trigo e frutos do mar. Durante décadas, a recomendação predominante foi adiar a sua introdução para reduzir o risco de alergia. Contudo, esta orientação foi revista de forma significativa com base em evidência de elevada qualidade.
O ensaio clínico randomizado LEAP (Learning Early About Peanut Allergy), publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a introdução oral precoce de amendoim conseguiu prevenir o desenvolvimento de alergia tanto em bebés de alto risco e sensibilizados como em bebés não sensibilizados. Com base nestes resultados, o National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID) publicou, em 2017, diretrizes específicas que vieram alterar a prática clínica internacional.
Consistente com esta mudança de paradigma, a Sociedade Brasileira de Pediatria também esclarece que não existe evidência de que a ordem de introdução dos diferentes alimentos influenciam o risco de alergia alimentar, devendo a criança ter contacto com todos os grupos alimentares, incluindo os alergênicos, entre os 6 e os 12 meses de idade. Adiar desnecessariamente a introdução de oleaginosos (na sua forma segura, triturada ou em pasta) deixou, portanto, de ser a recomendação-padrão.
Dados de vida real corroboram este novo modelo: um estudo conduzido pelo Children’s Hospital of Philadelphia, publicado em 2025 na revista Pediatrics, verificou que,desde a implementação das diretrizes do NIAID de 2017, a prevalência de alergia ao amendoim reduziu de 0,79% para 0,45%, e a de alergias alimentares em geral, de 1,46% para 0,93%.
Nota importante: crianças com eczema moderado a grave ou alergia ao ovo já diagnosticada devem ter a introdução de amendoim e outros oleaginosos avaliada previamente por um pediatra ou alergologista, antes de qualquer introdução em casa.
Com base nas evidências apresentadas, a equipe tecnica da TECNOVIDA sistematiza as seguintes recomendações práticas:
Como em qualquer etapa da alimentação infantil, o acompanhamento de um pediatra ou nutricionista permanece a melhor forma de individualizar estas recomendações a cada criança.
A evidência científica atual permite responder com clareza à questão colocada neste artigo: sim, as crianças podem consumir oleaginosas, mas a idade e, sobretudo, a forma de apresentação são determinantes para a segurança desse consumo. Oleaginosos triturados, em pasta ou farinha podem ser incorporados já a partir dos 6 meses, como parte natural da introdução alimentar recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela Organização Mundial da Saúde e, longe de dever ser adiada, esta introdução precoce é hoje reconhecida, com base em estudos como o LEAP, como uma estratégia eficaz de prevenção de alergia alimentar.
Já os oleaginosos inteiros devem ser evitados até, pelo menos, os 4 anos de idade podendo mesmo estender-se até aos 7 anos segundo diretrizes mais conservadoras, exclusivamente pelo risco de engasgamento associado à imaturidade da mastigação e deglutição nesta faixa etária, e não por qualquer restrição nutricional ou alergénica.
A TECNOVIDA reforça que cada criança tem o seu próprio ritmo de desenvolvimento e o seu próprio perfil de risco. Por isso, qualquer decisão sobre a introdução de oleaginosos deve ser sempre acompanhada por um pediatra ou nutricionista, garantindo que os inegáveis benefícios nutricionais destes alimentos são aproveitados com total segurança.
Depende da forma. Oleaginosos triturados, em farinha ou em pasta podem ser introduzidos a partir dos 6 meses, junto com o início da alimentação complementar. Já os oleaginosos inteiros só devem ser oferecidos a partir dos 4 anos de idade, e sempre sob supervisão de um adulto.
Não. A evidência científica atual, incluindo o estudo LEAP publicado no New England Journal of Medicine, mostra o oposto: a introdução precoce e regular de oleaginosos (em forma segura) está associada a uma redução do risco de desenvolver alergia alimentar, quando comparada com o adiamento da sua introdução.
Pelo risco de engasgamento e aspiração. Crianças pequenas ainda não possuem os dentes molares totalmente desenvolvidos nem a coordenação necessária para mastigar e engolir com segurança um oleaginoso inteiro, o que pode levar a que este obstrua as vias respiratórias.
Não deve iniciar sozinho(a). Crianças com eczema moderado a grave ou com alergia ao ovo já diagnosticada apresentam maior risco de alergia ao amendoim e devem ser avaliadas por um pediatra ou alergologista antes da primeira introdução, mesmo em formas seguras como pasta ou farinha.
As recomendações de segurança quanto ao risco de engasgamento (evitar a forma inteira antes dos 4 anos) aplicam-se de forma semelhante a todos os oleaginosos. A maior parte da evidência científica sobre prevenção de alergia foi construída especificamente com o amendoim; para os restantes frutos secos, a orientação clínica geral segue os mesmos princípios de introdução precoce e gradual, mas a avaliação individualizada com o pediatra continua a ser recomendada.
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